Gaguejar não foi e não é fácil. Houve anos em que eu teria feito qualquer coisa para que a gagueira simplesmente desaparecesse. Mas, à medida que fui amadurecendo, comecei a perceber que a gagueira não apenas me desafiou, ela me moldou de maneiras que eu nunca imaginei, ela me ajudou a desenvolver habilidades que hoje fazem parte de quem eu sou.
Aqui estão dez delas.
- Empatia
Quando você sabe como é lutar apenas para conseguir falar, você se torna muito mais consciente das dificuldades das outras pessoas, até mesmo das mais silenciosas. Inúmeras vezes senti a frustração de não conseguir me expressar da forma que eu queria. Senti a vergonha, a vulnerabilidade e o medo de ser mal compreendida ou julgada de forma errada. Por causa disso, eu julgo menos e procuro compreender mais. A gagueira me ensinou o quanto a paciência e a gentileza podem ser poderosas.
- Escuta Ativa
Por muito tempo, falei menos do que gostaria. Eu escutava mais e escutava de verdade, não apenas esperando a minha vez de falar, mas prestando atenção. Comecei a perceber mudanças no tom de voz, expressões faciais e hesitações. Passei a notar o que as pessoas não estavam dizendo. Ouvir se tornou uma das minhas habilidades.
- Resiliência
Houve dias em que fazer uma simples ligação parecia escalar uma montanha. Me apresentar em um grupo consumia toda a minha energia mental. Apresentações eram ainda mais difíceis. Incontáveis vezes eu evitei essas situações. Mas toda vez que eu enfrentava esses desafios, apesar do medo, eu construía resiliência.
Meus esforços para falar fluentemente muitas vezes desapareciam bem na minha frente. Mesmo com tanta preparação, eu entrava em pânico, travava e, às vezes, simplesmente não conseguia me expressar. Eu me senti um fracasso mais vezes do que consigo contar. A parte mais difícil não era a gagueira em si. Era voltar para o palco da vida depois disso e tentar novamente. Continuar acreditando nos meus sonhos e nas minhas capacidades, mesmo quando minha fala parecia estar contra mim.
Foi só a gagueira que me tornou resiliente? Claro que não. Mas com ela aprendi que sou capaz de fazer coisas difíceis, mesmo quando elas me assustam e mesmo quando eu não consigo na primeira tentativa.
- Coragem
Muitas pessoas pensam que coragem significa não sentir medo. Para mim, coragem foi falar com o coração acelerado. Foi levantar a mão em uma reunião quando ficar em silêncio parecia mais seguro.
A gagueira me deu oportunidades diárias de praticar a coragem, mesmo quando eu desejava não precisar ser corajosa para fazer algo que é tão natural para a maioria das pessoas: falar. Com o tempo, essa coragem deixou de estar limitada à comunicação. Ela se expandiu para outras áreas da minha vida. Eu aprendi a enfrentar o desconforto em vez de fugir dele.
- Adaptabilidade
Viver com gagueira significa estar constantemente se adaptando. Envio um e-mail em vez de ligar? Começo com outra palavra? Menciono minha gagueira no início de uma apresentação?
Com o tempo, eu me tornei criativa na forma como abordo a comunicação. Aprendi a pensar antecipadamente, a me preparar e a me ajustar no momento. Nem sempre funcionava. Às vezes, apesar de toda a preparação, as coisas davam errado. Mas você continua tentando. Essa adaptação constante fortaleceu minha capacidade de pensar rápido, não apenas na fala, mas na vida.
- Autoconhecimento
A gagueira me tornou muito consciente do meu mundo interior. Eu precisei perceber o que gerava tensão, o que aumentava a ansiedade e o que me ajudava a me sentir mais centrada. Passei muito tempo refletindo sobre minha forma de pensar, meus medos e meu diálogo interno.
Esse nível de consciência me moldou profundamente. Ele me ajudou a crescer emocionalmente e a me entender de maneiras que talvez eu não tivesse entendido de outra forma. Talvez até tenha despertado em mim o gosto por analisar meus próprios pensamentos, comportamentos e reações em um nível psicológico e emocional mais profundo.
- Autenticidade
Durante anos, tentei esconder minha gagueira. Troquei palavras, evitei situações e fingi que estava tudo bem. Mas esconder cansa.
Aos poucos, comecei a aceitar que é assim que eu falo e que está tudo bem. Quando parei de fingir, comecei a viver de forma mais honesta e me senti mais leve. Abraçar minha gagueira me levou à autenticidade. Como consequência, passei a me preocupar menos com o que as pessoas pensam sobre a forma como eu falo. Há algo libertador em não precisar mais atuar ou tentar impressionar os outros.
- Compreensão das Diferentes Formas de Comunicação
Eu me tornei mais consciente das diversas formas de comunicação, tanto verbal quanto não verbal. Expressões faciais, linguagem corporal, tom de voz, até a forma como nos vestimos. É fascinante perceber o quanto comunicamos sem usar palavras.
Essa consciência também me tornou muito mais perceptiva em relação ao ambiente ao meu redor. Eu percebo a atmosfera e muitas vezes consigo sentir o que as pessoas estão comunicando sem dizer diretamente. Essa sensibilidade me ajudou a construir conexões mais profundas e a lidar com situações sociais com mais cuidado e compreensão.
- Humildade
A gagueira me trouxe uma humildade que eu não escolhi, mas provavelmente precisava.
Há algo em ter dificuldade para dizer o próprio nome ou travar em uma palavra simples que rapidamente nos tira qualquer ego. Isso obriga você a confrontar as partes de si mesma que querem parecer impressionantes, confiantes e naturais. Eu nem sempre pude ser a pessoa que fala com fluidez na sala. Às vezes, eu era a que estava visivelmente com dificuldade. E isso não é fácil.
Com o tempo, essa experiência me suavizou. Ela me fez menos apegada à ideia de parecer perfeita. Me tornou mais compreensiva com minhas próprias limitações e com as limitações dos outros também.
A gagueira me trouxe para o chão. Ela me lembrou que todos nós temos algo que nos torna humanos, algo que nos impede de sermos impecáveis. E talvez isso não seja algo para esconder, mas uma oportunidade de crescer a partir disso.
- Compaixão por Mim Mesma
Essa talvez seja a mais importante. Durante muito tempo, eu fui extremamente dura comigo mesma. Eu me vigiava toda vez que travava e ficava imaginando o que a outra pessoa estava pensando. Eu queria consertar minha fala. Não queria parecer menos inteligente ou menos confiante do que os outros.
Mas a gagueira, aos poucos, me ensinou a ter compaixão por mim mesma. Aprendi que fluência não é sinônimo de valor. Um bloqueio não define minha inteligência, minha capacidade ou meu valor como pessoa. Aprender a ser mais gentil comigo mesma foi um dos maiores presentes adquiridos nessa jornada.
A gagueira me desafiou, me esticou e me trouxe humildade. Mas também moldou pontos positivos que talvez eu nunca tivesse desenvolvido de outra forma.
E você? Como tem sido a sua jornada? O que a experiência de gaguejar tem te ensinado?




