Gaguejando em língua estrangeira

Autora do texto: Raiani Sibien

Em 2006, minha família se mudou do Brasil para a Itália. Naquela época, eu só sabia falar português, mas não demorou muito para que eu me tornasse fluente em italiano. A fluência na nova língua não significava fluência na fala, pelo contrário, percebi que minha gagueira geralmente piorava quando falava em italiano. Não sei se é a estrutura do idioma ou seus sons fonéticos que influenciam o nível de fluência, mas os bloqueios na hora de pronunciar as palavras apareciam com mais frequência.

A comunicação corporal, principalmente através de gestos com as mãos, faz parte da cultura italiana, mas não podemos fugir da comunicação verbal por muito tempo. Meus dias vivendo na Itália foram cheios de altos e baixos em termos de fluência da fala e os desafios com novos idiomas estavam apenas começando.

Em 2010, me mudei para o Reino Unido para estudar. Eu tinha conhecimento básico de inglês, mas depois de alguns meses vivendo e estudando em Londres comecei a compreender melhor o que as pessoas falavam, meu vocabulário cresceu e minha auto confiança na comunicação aumentou. Finalmente pude começar a me expressar melhor em inglês.

Com o tempo, notei uma tendência em gaguejar mais ou menos dependendo da língua falada. Por exemplo, costumo ter menos bloqueios em inglês do que em italiano, enquanto em português minha fluência varia de acordo com meu estado emocional e nível de auto-estima. Na minha opinião, falar italiano exige um maior esforço oral para pronunciar corretamente as vogais e consoantes sonoras mais abertas, como o ‘R’, que não são comuns em português. A verdade é que não faço idéia por que sou mais fluente em uma língua do que em outra, mas me fascina que mudanças de fluência podem ocorrer quando falamos um outro o idioma.

Algumas pessoas acreditam que mudamos de personalidade quando nos comunicamos em uma língua estrangeira. Isto ajudaria a explicar por que indivíduos que gaguejam tendem a ser mais fluentes em um idioma específico. Talvez, inconscientemente personificamos um personagem que não é completamente quem somos, como um ator interpretando um papel fictício. Lembro de assistir uma entrevista com Bruce Willis, onde ele explicava como sua gagueira disaparecia enquanto estava no palco atuando. Para alguns, incorporar um personagem pode até aumentar a fluência, mas eu acredito que a maioria das pessoas que gaguejam não querem um paliativo e sim uma solução real que as possibilita serem elas mesmas.

Vale ressaltar que a gagueira pode passar despercebida ao ser interpretada como uma barreira linguística. É comum as pessoas acharem que os bloqueios na fala são resultado de falta de conhecimento do idioma estrangeiro falado. Isso já me aconteceu inúmeras vezes e devo confessar que saber que as pessoas confundiam minha disfluência como barreira linguística muitas vezes me ajudou a desviar meu foco da maneira como falo, diminuiu minha auto-exigência por fluência e reduziu minha gagueira. A diferença é que hoje em dia eu não teria problema algum em deixar transparecer que gaguejo, pelo contrário, aproveitaria a oportunidade para falar sobre o assunto e conscientizar o interlocutor sobre o que é gagueira.

Não sabemos ao certo por que gaguejamos mais ou menos em certos idiomas, mas não podemos negar que existe de fato uma variação do fluxo da fala.

Você gagueja e passa por experiências semelhantes? Compartilhe sua história conosco :).


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